O recuo de Brigitte Bardot

Brigitte Bardot morreu aos 91 anos em 28 de dezembro de 2025. A atriz se tornou um símbolo das mudanças comportamentais pela qual passou a juventude, ícone da libertação feminina, ativista das causas animais e ecológica. Bardot, que passou um tempo nas praias de Búzios ganhou uma estátua na orla (foto divulgação/ prefeitura de Búzios).

 Arte e Cultura   Dezembro 30, 2025

O recuo de Brigitte Bardot

Por:

mdo José Augusto Camargo

Brigitte Bardot, nascida em 28 de setembro de 1934 em uma família tradicional católica de Paris, morreu aos 91 anos em 28 de dezembro de 2025. Utilizando uma licença poética podemos afirmar que a atriz foi uma espécie de burguesa revolucionária em seu tempo, que se tornou um símbolo das mudanças comportamentais pela qual passou a juventude, ícone da libertação feminina, ativista das causas animais e ecológicas e a estrela mais brilhante a atuar fora do “star system” de Hollywood na segunda metade do século passado. Nos EUA, a única atriz que assumiu uma posição minimamente semelhante foi Jane Fonda (nascida em 1937).

Com uma carreira cinematográfica relativamente curta, estreou em 1952 e se retirou das telas em 1973 com apenas 38 anos, BB (como muitos se referem a ela) foi um cometa que atuou em filmes de grandes diretores europeus da época, escandalizou os conservadores e se tornou uma das lendas da sétima arte. A posição libertária da atriz atraiu a simpatia da escritora Simone de Beauvoir (1908-1986), uma das mais importantes feministas do século passado, que saudou em um artigo a figura de Brigitte Bardot que, com sua sensualidade natural, rompia o modelo de esposa virtuosa e mãe (texto publicado na revista americana Esquire em agosto de 1959).

O “mochilão” que Brigitte Bardot fez no Brasil em Búzios, em 1964, transformou a pequena vila de pescadores em um destino turístico conhecido internacionalmente. A prefeitura da cidade a homenageou com uma estátua em sua orla marítima e Caetano Veloso a introduziu na história da Tropicália quando, em 1967, a citou na letra da canção Alegria, Alegria (Em dentes, pernas, bandeiras/Bomba e Brigitte Bardot...). Anteriormente, situação semelhante havia ocorrido em Saint-Tropez, atual destino de famosos, que ganhou projeção graça a atriz que filmou por lá E Deus criou a mulher, em 1956, obra dirigida por Roger Vadim (1928-2000), filme que escandalizando plateias conservadoras e a transformou em uma sex-symbol mundial.

Com a interrupção da carreira cinematográfica, e morando na Saint-Tropez que ajudou a tornar famosa, ela se dedicou integralmente à defesa da causa animal criando em 1986 a Fundação Brigitte Bardot. Na verdade, sua militância na área começou em 1962 quando iniciou uma campanha contra a forma cruel com que os animais eram abatidos na França.

Mas, como já acontecera com outras personalidades outrora progressistas, Brigitte Bardot foi assumindo com o passar dos anos posições mais conservadoras e chegou até a apoiar a extrema direita representada por Jean-Marrie Le Pen e a atacar imigrantes muçulmanos.

Mas, verdade seja dita, Brigitte Bardot desempenhou, a partir de meados dos anos de 1950 e nas décadas seguintes, um papel cultural relevante no debate público e compreender os detalhes da sua trajetória e a forma como se inseriu no contexto político de sua época é essencial para decifrar por que ela– e outros militantes – vão progressivamente caminhando para a direita.

A burguesia, notadamente a francesa, chega ao século XIX com a glória de ter sido a responsável pela Revolução Francesa e pela destruição do antigo regime, esta herança revolucionária de classe foi pouco a pouco se esgotando a medida que era confrontada pelo proletariado em ascensão o que, na prática, demonstrava a incapacidade dos burgueses em realizar os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que apregoavam. O século XX foi um momento histórico onde claramente se deu este embate de amplitude mundial (basta citar a atuação política dos partidos de esquerda nas democracias liberais), onde parte da burguesia se moveu para a direita (vide a criação dos movimentos fascistas) o que comprova os limites da concepção política burguesa e a não realização de suas promessas revolucionárias.

Diante deste quadro a fração minimamente progressista que restava da burguesia acaba por se voltar, não para a política ou economia de maneira ampla, mas sim para os “males sociais”, questões pontuais a qual desejam minimizar. Aliás, esta tendência, claramente presente em nossos dias, já havia sido detectada por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista de 1848 quando classificam os filantropos, humanitários e, entre outros, também os protetores de animais na categoria do “Socialismo conservador Burguês”. Um exemplo claro deste fenômeno onde a burguesia atua de maneira circunscrita ao seu objeto pode ser notado naquela que se tornou uma das mais importantes conquistas da democracia moderna; o voto feminino. O Movimento Sufragista foi uma mobilização liderada por mulheres progressistas de origem burguesa e não pelas proletárias, estas, certamente, se encontravam mais ocupadas em garantir a sobrevivência material diária em meio àquele universo de exploração capitalista.

Com o avanço do processo histórico a burguesia se torna conservadora e a classe média, uma de suas maiores expressões, mergulha fundo no reacionarismo. Na contemporaneidade neoliberal o segmento social médio abraça de maneira acrítica os pressupostos do livre mercado, da meritocracia e outros mitos.

Este desdobrar histórico explica um dos grandes fenômenos da pós-modernidade, a emergência dos movimentos sociais identitários, ecológicos e culturais que, apesar de dialogar com parcelas populares e trabalhistas se encontra envolvido, ou em alguns casos hegemonizados, pela fração progressista da burguesia e da classe média (obviamente também temos casos de pura e descarada manipulação destes sentimentos pelo mercado, mas isto é outra história).

O que explica a guinada de Brigitte Bardot – e outros casos semelhantes – é o fato dela não conseguir ultrapassar os limites da consciência burguesa (mesmo que formalmente progressista). Quando a militância da classe média chega a um momento de paralisia em que não mais pode fazer avançar suas propostas, pois para isto seria necessário caminhar em direção a coletivização, ela se mantêm restrita aos marcos iniciais de sua atividade, circunscrita em si mesma e aos seus domínios, o ideal burguês e liberal não atinge a dimensão política e ideológica necessária para a mudança efetiva no modo de produção material e cultural em que vivemos.

Se o processo de ativismo social não encontra formas concretas de conclusão das expectativas que enseja o único meio de superar esta contradição é recuando, seja do ponto de vista pessoal ou político, por isto é que vemos tão frequentemente antigos ativistas sociais abrandarem muitas de suas posições progressistas. O fato de este processo ser normal entre ativistas do campo burguês não significa necessariamente traição aos seus ideais de juventude (no caso de Brigitte Bardot ela nunca deixou de defender aos animais), tampouco decrepitude mental, mas sim uma incapacidade de compreender o processo dialético que move a sociedade. A contradição entre os ideais limitados da sua classe social e a exigência de ações amplas no campo político, econômico e cultural para efetivar as mudanças a que almeja (as vezes ingenuamente) torna a ação do militante burguês uma missão praticamente impossível. E, não sabendo (ou podendo) avançar no confronto a solução é recuar.

Brigitte Bardot não foi a primeira e certamente não será a última pessoa a percorrer este caminho tortuoso. Temos o direito de criticar os pontos de vista lamentáveis defendido ao final da vida pela atriz – alguns efetivamente flertavam com o fascismo – mas é forçoso reconhecer que em momentos anteriores suas atitudes estavam em consonância com postulados progressistas e civilizatórios. Historicamente foi importante e bom enquanto durou...

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