A charge que se multiplicou

Junho 17, 2020 - Tempo de leitura: 6 minutos

Á esquerda a charge original do Aroeira e ao seu lado a releitura de Guto Camargo

Tudo começou com o ministro da Justiça defendendo o governo do seu capitão ao querer enquadrar o jornalista Ricardo Noblat na Lei de Segurança Nacional pela publicação de uma charge do cartunista Renato Aroeira. Como não era a primeira vez que autoridades e poderosos procuravam com o uso da força e da intimidação cercear o trabalho de jornalistas e artistas, um grupo de chargistas que se conectam pelas redes sociais organizaram um verdadeiro movimento virtual de desobediência civil.


Agindo rapidamente com os pincéis e as ferramentas digitais eles criam o movimento Charge continuada, suas entidades representativas produzem uma carta manifesto em “defesa da liberdade artística e ao direito ao humor”, um abaixo assinado virtual “Pela liberdade de expressão, em solidariedade ao cartunista Aroeira” é criado e os artistas inundam a internet com novas versões da mesma charge. O movimento obtém uma grande repercussão na mídia, inclusive internacional quando é noticiado pelo site do New York Times e pela Associated Press.


As charges estão expostas no Instagram , na página da Revista Pirralha no Facebook  e circulando por aí nas redes sociais dos próprios autores com variadas hashtags (uma das mais usadas é #chargistascontracensura). O abaixo assinado pode ser acessado AQUI e você pode ler o texto das associações profissionais abaixo.


Carta aberta em defesa da liberdade artística e ao direito ao humor


Os, chargistas, caricaturistas, desenhistas e ilustradores de todo o Brasil que subscrevem esta carta aberta manifestam sua solidariedade aos colegas vítimas da intolerância e da perseguição política assim como protestam contra a violência daqueles que procuram censurá-los.


O desprezo pela democracia dos nossos governantes chega ao ponto do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, por meio do seu ministro da Justiça, André Mendonça, solicitar à Polícia Federal e ao Ministério Público abertura de investigação sobre uma charge de autoria de Aroeira. A imagem, uma clara alusão a ausência de políticas sanitárias em plena pandemia causada pelo vírus da Covid-19, mostra uma cruz vermelha (símbolo da saúde) transformada em uma suástica pelas mãos autoritárias do presidente. O absurdo da iniciativa fica evidente quando sabemos que “O pedido de investigação leva em conta a lei que trata dos crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, em especial seu art. 26”. O Brasil está se tornando um país onde o humor passa a ser censurado como nos piores períodos da ditadura. O que é mais estarrecedor; uma charge ou pessoas atirando fogos sobre o STF? Esta uma ação que, sim, mereceria a atenção do Ministro da Justiça.


Como se não bastasse isso, os desenhistas Laerte, João Montanaro, Alberto Benett e Cláudio Mor estão sendo interpelados na Justiça pela publicação de cinco charges críticas à violência policial. Apresentada em dezembro de 2019 no jornal Folha de S. Paulo os trabalhos despertaram a ira da Associação de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar, Defenda PM, que entrou na Justiça com pedido de esclarecimento criminal pois as considerou “constrangedoras”.


A função de toda boa charge é a de através do humor refletir e comentar por meio do desenho os acontecimentos de interesse do cidadão. A charge não é uma criação do nada, mas sim o termômetro do que o povo fala pelas ruas.
Portanto, é descabida a afirmação de que uma charge possa ser “constrangedora” quando o que deve constranger e chocar a opinião pública é o fato que a gerou. Sabemos que ao longo da história, diversas charges, cartuns e caricaturas resultaram em perseguição e represália aos artistas que a criaram, o que atesta a dimensão que o humor pode alcançar na sociedade.


Assim sendo, protestamos contra qualquer tentativa de cercear a liberdade artística, de imprensa, de consciência e o trabalho dos chargistas brasileiros que por meio do traço ajudam na construção de um país mais justo e solidário.

Junho de 2020

A publicação

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