A festa mundial do futebol negócio da FIFA

A Copa do Mundo mostra que o futebol é um empreendimento que visa lucro e não apenas entretenimento. É mercadoria cujo negócio se dá nos marcos da economia neoliberal.

 Trabalho & Economia   Dezembro 1, 2022

A festa mundial do futebol negócio da FIFA

Por:

mdo José Augusto Camargo

A Copa do Mundo nos força a enxergar algumas verdades sobre o futebol. A mais óbvia é a de que se trata de um empreendimento que visa lucro e não apenas entretenimento, sendo assim, o futebol é mercadoria de alcance global e o negócio se dá nos marcos da economia neoliberal.

A mercantilização envolve todas as peças que compõem o espetáculo esportivo: jogadores, clubes de futebol, campeonatos, federações locais, administração governamental (principalmente na realização da Copa), marketing, imprensa esportiva e, finalmente, o torcedor.

Nesta engrenagem a condição do jogador de futebol é dupla, ao mesmo tempo em que é o trabalhador que realiza o ato de jogar é também mercadoria, ou seja, matéria-prima com a qual se faz o produz o futebol, portanto, é uma espécie de commodities. No caso específico do Brasil, jogador é produto cultivado em série para ser exportado e não para abastecer o mercado interno (exatamente como as commodities do agronegócio), Para suprir a demanda planetária do futebol atual é preciso que o fornecedor da matéria-prima possa garantir o nível de qualidade e a quantidade necessária, sendo que neste ponto o Brasil é destaque global, não sendo raro que jovens saiam direto das categorias de base para se profissionalizarem no exterior.

O melhor futebol do mundo

A exposição do jogador brasileiro ao mercado internacional teve início antes da II Guerra Mundial. O símbolo desta fase pioneiro é Leônidas da Silva, o Diamante Negro, tido como inventor do gol de bicicleta, foi eleito o artilheiro da Copa do Mundo da França de 1938 com sete gols (o Brasil terminou em terceiro lugar).

Após o campeonato da França a Guerra paralisa a realização dos mundiais que retornam somente em 1950 exatamente no Brasil – o que demonstra a importância que o país conquistara no esporte. Durante as duas décadas seguintes, até a conquista do tricampeonato no México em 1970, o Brasil se consolida como o “País do Futebol” fazendo de Pelé a personificação do ‘rei do Futebol”. Apesar de o Brasil só voltar a conquistar outra Copa do Mundo em 1994 (EUA) foi durante a década de 1980 que o país inicia o processo de exportação em grande escala da commodities jogador de futebol. Esta é a fase que surgem os internacionais Zico e Falcão.

A exportação de jogadores pode ser facilmente comprovada em 1994 quando se examina a lista dos 22 jogadores convocados pelo Brasil para a Copa nos Estados Unidos; nada menos que 11 atletas atuavam fora do Brasil (*), ou seja, metade – e daí em diante a situação se aprofunda e nunca mais tivemos uma seleção onde a maioria escalada atuasse em campos brasileiros.

O mercado da bola

A lógica nacional de exportação do “jogador-commodities” é idêntica à de outros produtos primários que são “industrializados” nos grandes centros e depois consumidos por aqui. A Suíça importa cacau e vende chocolate, na Itália o café brasileiro não só é embalado em capsulas como também colabora para movimentar a indústria das máquinas de café expresso, entre outros exemplos.

Com milhões de praticantes que iniciam o aprendizado na infância e um número incontável de clubes e campos de futebol onde se pratica o esporte o país extrai desta quantidade a qualidade necessária para abastecer o mercado mundial do futebol. O resultado é que o Brasil exporta matéria-prima (jogador) para os centros desenvolvidos, sucateia a indústria local (o nosso futebol de toda semana) e ainda consome as partidas das ligas europeias.

O jogador-commodities transita de um clube para outro, e de país em país. Quanto mais capacitado tecnicamente é o atleta melhor ele se encaixa na lógica de mercadoria e mais comercializável se torna nesta bolsa de valores onde jovens promissores, antes mesmo de se profissionalizarem, já são “cotados” no mercado. Se antes a condição de craque era alcançada após uma série de bons serviços prestados ao time durante os jogos hoje ela pode ser adquirida precocemente quando ainda se é uma jovem “promessa” e devidamente cotada no mercado futuro visando sua transferência para clubes de ponta do futebol mundial quando, então, o investimento realizado se torna lucro

Atualmente, em nosso país, qualquer jogador pouco acima da média não permanece tempo suficiente em um mesmo clube para solidificar laços identitários entre ele, o time e sua torcida. Para o apaixonado torcedor isto se torna um problema que, além de criar a imagem do jogador mercenário que não cultiva a paixão pela camisa que veste, faz com que o jovem atleta passe a encarar a atuação em campos brasileiros como uma etapa transitória da carreira (muitas vezes de menor importância) enquanto espera a transferência internacional.

Na geopolítica do futebol, os clubes brasileiros não somente são fornecedores de atletas para os times do mercado global como receptores de jogadores oriundo de mercados ainda menos desenvolvidos, notadamente da própria América Latina. Sob esta perspectiva o clube de futebol pode ser visto como a célula mater da sociedade do futebol. É no confronto semanal do campeonato disputado pelo time do seu coração que o torcedor exerce a paixão cotidiana pelo esporte, somente depois é que vai torcer, de 4 em 4 anos, pela seleção do país.

No Brasil a venda de jogadores é um negócio milionário que enriquece muita gente e nesta engrenagem cabe ao clube de origem uma parcela do ganho (não necessariamente a maior parte) na exportação do jogador-commodities, o que torna as agremiações (e empresários) ávidos por manter a alta rotatividade das compras e vendas de atletas para melhorar o fluxo de caixa.

O papel do torcedor

Ao torcedor cabe apenas lamentar a perda do craque. A queda no nível de atuação dos campeonatos brasileiros traz o risco de desmobilizar a torcida, o que pode eventualmente atrapalhar o funcionamento da nobre máquina do esporte bretão. Para evitar que isto ocorra o fã do futebol também tem que ser de algum modo integrado ao sistema jogador-commodities (ou sujeitado a ele). É necessário manter a paixão do torcedor brasileiro pelo futebol.

Para realizar a conexão entre o torcedor e a lógica do jogador-commodities a solução nacional foi aprofundar ainda mais a singularidade e a individualidade do craque em detrimento da sua participação no coletivo representado pelo time, mesmo sendo óbvio que o futebol é um esporte coletivo e colaborativo (a defesa da tese da individualidade do craque se expressa na oposição entre o campeonato de pontos corridos, que premia a regularidade, trabalho constante e dedicação coletiva versus a partida final por confronto direto onde um único lance genial pode decidir em segundos o campeonato).

É através dos meios de comunicação, principalmente da TV, que se realiza a integração do torcedor ao sistema global do futebol. O processo se dá pela manipulação da mistica popular do jogador diferenciado, criativo, driblador, enfim, do craque que exportado para brilhar nos campos europeus passa a ser alvo da cobertura direta da imprensa, o que possibilita ao torcedor acompanhar o desempenho do ídolo que outrora jogou em seu clube.

A cobertura oferecida pelas transmissões de TV atinge o clímax durante a Copa do Mundo quando o craque volta a servir a seleção brasileira, A regra da nacionalidade e não do local de atuação – por mais que seja uma tradição da FIFA – é extremamente adequada no caso dos nossos jogadores que, assim, mantêm um vínculo mínimo com Brasil.

Outro mecanismo importante para reatar laços entre o jogador-commodities e o torcedor local é a metamorfose do atleta em figura midiática (o que, sejamos honestos, ocorre em vários esportes). Uma personalidade narcísica, uma agenda extracampo repleta de eventos, um visual marcante, tudo isto fornece matéria prima para a imprensa “noticiar” e manter a atenção do torcedor brasileiro sobre os grandes jogadores que atuam no exterior. Um atleta no exterior discreto e reservado fica menos visível ao torcedor brasileiro mesmo que atue no mesmo patamar técnico do outro que propicia verdadeiras performances públicas para chamar a atenção. Mantida esta atitude (por personalidade própria ou orientação de assessores) a imprensa esportiva se encarrega da divulgação. A consequência é que se criou uma geração de atletas em sua maioria imaturos, alheios aos problemas do mundo real e egocêntricos totalmente dedicados a serem jogador-commodities.

A Copa do Mundo FIFA simboliza a vitória deste futebol neoliberal que concentra poder e renda nos grandes clubes europeus e coloca os demais de maneira subalterna como fornecedores de insumos para alimentar a indústria. Mas o que importa agora no final de 2022 e que estamos novamente hipnotizados pela magia dos craques brasileiros brilhando nos campos do Catar. Assim será até levantarmos a taça!

Foto de abertura: comunicado de imprensa da FIFA (autoria não creditada)

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(*) Os convocados atuavam em 5 diferentes países

  • Alemanha (3 atletas): Jorginho; Dunga e Paulo Sérgio.
  • Espanha (3 atletas): Mauro Silva; Bebeto e Romário.
  • França (2 atletas): Raí e Márcio Santos
  • Itália (2 atletas): Aldair e Taffarel
  • Japão (1 atleta): Ronaldão (zagueiro)

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