Festa de aniversário da sociologia paulista

A Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP) surge em 1933 como parte do projeto político de uma elite intelectual que, com certa pretensão de vir a ser uma burguesia revolucionária, pretende conduzir a locomotiva do Brasil rumo a modernidade capitalista.

 Arte e Cultura   Dezembro 17, 2023

Festa de aniversário da sociologia paulista

Por:

mdo José Augusto Camargo

A Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP), que acaba de completar 90 anos, surge no início da década de 30 do século XX, mais precisamente em 1933, como parte do projeto político de uma elite intelectual capitaneada por Roberto Simonsem que, com certa pretensão de vir a ser uma burguesia revolucionária, pretende conduzir a locomotiva do Brasil rumo a modernidade capitalista onde o industrialismo substituiria a agricultura como fator principal da riqueza. A democracia liberal era o caminho proposto para superar o arcaico mundo agrário sob o qual o país vivia, sendo que caberia aos paulistas a vanguarda deste processo.

Derrotada politicamente em 1930 e militarmente em 1932 e sob o governo centralizador de Getúlio Vargas restava aos paulistas a primazia econômica que deveria, portanto, ser exercida por uma elite intelectualmente preparada para tal desafio. A criação da ESP foi uma das respostas a este desafio a qual se somaram outras iniciativas modernizantes, com destaque para a criação da Universidade de São Paulo em 1934. Inclusive a transformação do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) em Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) após a implantação da estrutura sindical oficial pelo governo é parte deste mesmo processo político (o CIESP seria refundado em 1942 pela FIESP para ser o braço social dos empresários).

Não seria, portanto, de todo absurdo afirmar que a ESP surge sob o signo da “razão instrumental” com o objetivo de preparar adequadamente os quadros e as lideranças políticas e econômicas que teriam por missão implantar a máxima estampada no brasão do município de São Paulo; “non ducor duco” (não sou conduzido, conduzo). Se examinarmos a lista de ex-alunos da instituição veremos que parte desta missão foi exemplarmente cumprida.

Mas como a modernidade traz em seu seio a contradição dialética a evolução histórica reordenou um pouco da lógica inicial aproximando-a mais da “razão crítica” atraindo para suas salas de aula um contingente mais próximo à classe média e até mesmo de segmentos mais populares. Lembro me de que uma pesquisa socioeconômica realizada entre os alunos da minha época que demonstrava que as “cotas” para negros e alunos oriundos de escolas públicas – uma proposta ainda não implantada mas que mobilizava a opinião pública – já era cumprida na prática pela escola, o que comprova que a ESP era mais democrática e representativa do que a maioria das instituições de ensino superior da época.

Mas uma coisa se manteve inalterada nesta trajetória; a vocação da ESP de ser um centro de formação e aprimoramento de lideranças sociais e políticas. Trata-se de um local que reúne em suas salas de aula profissionais já formadas em outras áreas a procura de ampliar seus conhecimentos e assim alavancar suas carreiras e ao lado destes temos outro grupo que visa melhor formação teórica para fundamentar sua militância social, política, sindical ou partidária. Obviamente esta riqueza humana é complementada pelos jovens recém-saídos do ensino médio em busca de inclusão no mercado profissional e por pessoas mais velhas que, pelas contingências da vida, foram impedidas de aprofundar seus estudos e o fazem agora, realizando assim sonhos e vocações.

O meu caso particular se insere nos primeiros grupos pois atuava com jornalista na imprensa diária e integrava a direção do sindicato da categoria mas, creio, seria capaz de identificar entre meus colegas, de ambos os sexos, representantes dos diversos tipos ideais apresentados acima.

Para encerrar este artigo (talvez o mais correto seja nominá-lo de crônica) relato um breve caso pessoal onde a ESP foi protagonista importante. A minha turma, formandos de 2002, coincidentemente nos 70 anos da escola, se intitulava “Turma Octavio Ianni”. Infelizmente nosso homenageado já se encontrava com problemas de saúde e não pode comparecer a cerimônia de formatura (viria a falecer dois anos depois) mas enviou uma breve mensagem que foi lida e distribuída na ocasião.

Passado alguns anos eu representei o Sindicato dos Jornalistas, do qual era diretor, em uma atividade organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) para debater as condições de trabalho e suas implicações na saúde do trabalhador. No evento se encontrava o sociólogo italiano, professor na Universidade de Trieste, Francesco Lazzari, que abordou a divisão do trabalho em sua palestra. Terminada a conferência me aproximei, me apresentei e disse que, como tive formação em sociologia, sua abordagem do tema me interessava particularmente. Feita a aproximação ele me confidencia que gostava muito do trabalho do sociólogo brasileiro Octavio Ianni, que havia falecido a pouco tempo e me perguntou se conhecia sua obra. Obviamente respondi a pergunta relatando a mesma história apresentada acima, o que o deixou mais animado para continuar a conversa. O resultado foi que semanas depois lhe enviei por e-mail uma cópia do texto que, acredito, hoje se encontra em algum arquivo italiano. Nesta mensagem o professor Octavio Ianni apresenta uma reflexão sobre os desafios que o século recém nascido reserva aos sociólogos e sobre a missão que caberia aos cientistas sociais neste novo tempo.

Para que todos conheçam o documento, ao mesmo tempo histórico e afetivo, reproduzo a seguir seu inteiro teor:

Mensagem aos formandos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo

Todos estão entrando no século 21, como interlocutores e profissionais, preparados para pensar e atuar em uma realidade social simultaneamente problemática, inquietante e fascinante. São desafios práticos e intelectuais realmente surpreendentes. As transformações que estão em curso no presente multiplicam desafios e oportunidades, aflições e perspectivas. São horizontes da maior importância para indivíduos e coletividades, povos e nações. Sim, estão sendo abaladas as bases sociais e mentais de referência de uns e outros, em todo o mundo. Esse o cenário nacional e mundial em que vocês e todos nós estamos sendo desafiados a participar, contribuindo com a nossa formação intelectual, o pensamento crítico; combinando sempre o sentido de realidade da realidade e o compromisso com a utopia. Sim, é a utopia que torna possível imaginar um mundo mais humano, no qual todos podemos sentir que realmente fazemos parte da humanidade; uma nova e fascinante universalidade, na qual todos descobriremos que a vida pode ser bela.

Octavio Ianni

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Texto escrito por ocasião das comemorações dos 90 anos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo para uma publicação em homenagem à instituição que, infelizmente, não se concretizou.

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