O surgimento das fake news

Junho 7, 2020 - Tempo de leitura: 8 minutos

Após a eleição de Donald Trump em 2016 para a presidência dos EUA o termo “Fake News” (em português; notícias falsas) se popularizou. O então candidato passou a usar o termo para desqualificar as informações divulgadas pela imprensa quando não o favoreciam enquanto informações distorcidas eram usadas em seu benefício. Das eleições norte-americanas o conceito difundiu-se pelo globo chegando ao Brasil onde, em 2018, foi uma das mais importantes estratégias eleitorais do candidato, Jair Bolsonaro, um notório direitista e admirador confesso do presidente norte-americano.


Se Trump serviu de garoto-propaganda para divulgar o termo, o conceito já circulava pela internet. Graig Silverman, editor do site BuzzFeed, por exemplo, o usa desde outubro de 2014:

“Na época, eu estava trabalhando em um projeto de pesquisa e em um site que rastreavam e analisavam a disseminação de informações falsas nas mídias sociais e nos noticiários. Ao encontrar sites como o nationalreport.net, comecei a chamá-los e a chamar o conteúdo que publicavam de ‘fake news’. Parecia uma descrição natural; não pensei muito sobre isso. E, com o tempo, ajudei a popularizar esse termo”. (1)

Apesar de não ser restrito aos meios digitais o termo acabou sendo relacionado ao uso indiscriminado de informações falsas difundida por meio das redes sociais. Como consequência, muitos passaram a ver o fenômeno como uma decorrência do surgimento da rede mundial de computadores, ou seja, um produto típico das plataformas digitais, fruto da revolução tecnológica causada pela digitalização da informação. Mas a verdade é que se trata de um processo recorrente na história da comunicação que se apresenta em novas roupagens.
Segundo Bente Kalsnes, o Merriam-Webster Dictionary assinala o uso do termo “Fake News” em artigos de jornais já nos anos de 1890/91 (The Cincinnati Commercial Tribune, The Kearney Daily Hub e The Buffalo Commercial), mas, afirma a autora, informações inverídicas são notadas na imprensa há séculos. (2)
Mas seria seu uso por interesses políticos uma novidade introduzida por Trump nesta era digital? É fato que este recurso se faz presente em todos os continentes, estudo da Universidade de Oxford aponta manipulação da mídia social em campanhas realizadas em 70 países e informa que o problema aumentou nos últimos anos; detectado em 28 países em 2017, passou para 48 em 2018. “Em cada país há, pelo menos, um partido político ou órgão governamental que usa a mídia social para moldar atitudes públicas localmente”, mas o texto esclarece que “é importante reconhecer que muitas das questões centrais da propaganda computacional – polarização, desconfiança ou declínio da democracia – já existiam muito antes das mídias sociais e até da própria Internet” (3)
Outra pesquisadora, Joanna Burkhardt, bibliotecária da Universidade de Rhode Island, igualmente afirma que o uso político de informações falsas não é novidade. Ela registra o primeiro uso conhecido de notícias falsas ligado ao mundo político no século VI dc, em Bizâncio. O historiador Procópio de Cesária, que inicialmente apoiava o imperador Justiniano, após a morte do mesmo passou a escrever textos difamatórios sobre o antigo imperador uma vez que o novo rei, Justino II, se opunha ao anterior. Outros exemplos clássicos citados são os Pasquins italianos no século XVI e, no século seguinte, as Canards, espécie de jornais sensacionalistas que circulavam em Paris. No texto a autora apresenta, inclusive, o caso do escritor Jonathan Swift (autor de Viagens de Gulliver) que em 1710 escreve o livro A Arte da Mentira Política. (4)
Em sua metodologia a autora compila uma série de “fake news” identificadas ao longo dos séculos e divide a existência das notícias falsas em quatro fases; 1 – Pré invenção da imprensa, 2 – Pós imprensa, 3 – Sociedade de massa e 4 – Era da internet. Burkhardt concorda que é a partir do século XVI, após a popularização da imprensa, que as informações falsas adquirem maior contundência. (5)
A era da internet certamente aumentou a propagação das falsas notícias, no entanto, no início do século XX o jornalista Walter Lippmann (1889/1974) escreve um livro, Public Opinion, em 1922, onde manifesta sua preocupação com o fato de que falsas informações podem incidir sobre a opinião pública e interferir no processo democrático de uma nação, o que comprova que a manipulação midiática não é uma exclusividade digital. (6)
Efetivamente, o uso da informação como arma política para influenciar a representação popular e alterar o equilíbrio das forças política adquire importância após o estabelecimento da democracia burguesa, das ideias liberais e da revolução industrial. O desenvolvimento capitalista e a urbanização criam as condições para a existência dos meios de comunicação de massa, inicialmente através da imprensa diária, depois pela radiodifusão até chegar às redes sociais de hoje. Aliado a isso, a inclusão das massas populares no processo eleitoral, fruto da luta dos trabalhadores em busca de sua representação política, explicita as contradições entre o interesse da minoria dirigente e o da maioria da população abrindo caminho para as experiências de manipulação da vontade coletiva.
Neste início deste século, como o capitalismo se encontra em crise, todo este quadro se apresenta de forma dramática pois a alta burguesia se move no sentido de manter o controle social e crescente o acúmulo de capital. Assim como no princípio da Revolução Industrial, onde a propriedade do maquinário pela burguesia foi condição essencial para manter sua supremacia econômica e social, hoje, trata-se de dominar os processos de digitalização, deter o controle sobre os “big datas”, fomentar a “indústria 4.0” e dirigir a internet. Estamos vivendo outro capítulo de uma história conhecida onde o poder econômico pretende implantar uma nova etapa de acumulação de capital agora potencializada pela revolução digital. O escândalo das “fake news” seria, neste quadro, resultado – e ao mesmo tempo instrumento – desta luta capitalista para a manutenção da hegemonia.

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(1) SILVERMAN, C. Eu ajudei a popularizar o termo “fake news”, mas hoje sinto calafrios ao ouvi-lo. Texto disponível em https://www.buzzfeed.com/br/craigsilverman/historia-fake-news .

(2) Bente Kalsnes. Fake News, Oxford Research Encyclopedia of Communication, 2018. https://www.academia.edu/37983073/Fake_News (texto em inglês).


(3) SAMANTHA Bradshaw e PHILIP N. Howard. 2019 Global inventory of organised social media manipulation, University of Oxford. Texto disponível em https://comprop.oii.ox.ac.uk/wp-content/uploads/sites/93/2019/09/CyberTroop-Report19.pdf.

(4) A arte da mentira política foi publicado no Brasil em edição conjunta com O mentir verdadeiro, de Jean-jacques Courtine, pela editora Pontes. Leia uma análise aqui: http://www.artistasgauchos.com/conexao/3/cap11.pdf.

(5) Joanna M. Burkhardt. History of Fake News, Oxford Research Encyclopedia, Communication. University Press USA, 2018. https://journals.ala.org/index.php/ltr/article/view/6497 (texto em inglês).

(6) Opinião pública, de Walter Lippmann, foi publicado no Brasil pela Editora Vozes. O site da editora apresenta a seguinte resenha: “A burocratização, a impessoalidade das relações sociais na nova sociedade industrial e a complexidade dos problemas impedia que um indivíduo pudesse atuar ativa e conscientemente no cenário político e social como propunha a teoria democrática. Predominava agora a influência de grupos poderosos na administração da opinião pública. Neste novo ambiente, o que estava em jogo era o "pseudo-ambiente", ou seja, as imagens criadas indiretamente pela ação da mídia e do noticiário em nossos mapas mentais. São estas imagens estereotipadas da realidade que controlam os afetos e os rancores, e que determinam o humor do público. E elas resultam menos da capacidade cognitiva do indivíduo e mais da manipulação e administração do consenso social pelas partes interessadas”. Lippmann é considerado um dos precursores do moderno estudo da mídia.

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